Conforme indica Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a relação entre filhos adultos e pais idosos que necessitam de suporte financeiro é um dos territórios mais delicados e menos discutidos do envelhecimento familiar. No Brasil, o Estatuto do Idoso e o Código Civil estabelecem a obrigação alimentar entre parentes, o que significa que filhos adultos podem ser juridicamente obrigados a contribuir para o sustento de pais idosos que não têm renda suficiente para suas necessidades básicas. Esse processo, quando necessário, raramente é neutro para a saúde e para as relações familiares de nenhuma das partes envolvidas.
Neste guia, abordaremos o que está em jogo quando o sustento do idoso precisa ser decidido em juízo.
O que a lei estabelece e quem tem direito?
O direito a alimentos entre parentes no Brasil está previsto no Código Civil e é aplicável em ambas as direções: assim como pais têm obrigação de sustentar filhos menores, filhos adultos têm obrigação de sustentar pais idosos que não possam prover seu próprio sustento. O Estatuto do Idoso reforça essa proteção ao estabelecer que o idoso tem direito à proteção da família e da sociedade, com prioridade absoluta na efetivação de seus direitos fundamentais.
Como aponta Yuri Silva Portela, na prática clínica geriátrica, a insuficiência financeira do idoso se manifesta de formas que a medicina frequentemente não conecta à sua causa real: abandono de medicamentos por falta de recursos, redução da qualidade alimentar, adiamento de consultas e exames e piora progressiva de condições crônicas que seriam controláveis com acesso adequado ao tratamento. Sendo assim, identificar a precariedade financeira como fator determinante do adoecimento do idoso é o primeiro passo para que o sistema de saúde possa articular os encaminhamentos necessários, incluindo o jurídico quando pertinente.
O impacto do processo judicial nas relações familiares
Acionar judicialmente um filho para obter pensão alimentícia é uma decisão que o idoso raramente toma com leveza. Ela frequentemente representa o ponto final de um longo processo de pedidos não atendidos, promessas não cumpridas e silêncios que foram se acumulando até que a via judicial se tornou a única alternativa disponível. O processo em si, com suas audiências, documentos e decisões formais, transforma uma relação privada em um conflito público que frequentemente deixa cicatrizes permanentes em ambas as partes.

Yuri Silva Portela comenta que o impacto psicológico desse processo sobre o idoso é frequentemente subestimado. A culpa por ter levado um filho a juízo, o medo de retaliação afetiva, a vergonha diante da família expandida e a ansiedade sobre o andamento do processo produzem um estado de estresse crônico com consequências fisiológicas reais: elevação da pressão arterial, comprometimento do sono, piora de quadros depressivos e ansiedade persistente que compromete a adesão ao tratamento e a qualidade de vida de um idoso que já enfrentava dificuldades.
Mediação como alternativa ao confronto judicial
Antes de recorrer ao processo judicial, a mediação familiar oferece uma alternativa que pode produzir acordos mais duradouros e menos traumáticos para todas as partes. Mediadores capacitados facilitam conversas em que as necessidades do idoso são apresentadas de forma clara, as possibilidades reais de contribuição de cada filho são avaliadas e acordos voluntários são construídos com base no diálogo e no respeito mútuo, sem a adversarialidade inerente ao processo judicial.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, iniciativa que integra advogados à equipe multidisciplinar para atender comunidades carentes em regiões de difícil acesso, projetos dessa natureza têm capacidade de identificar precocemente situações de vulnerabilidade financeira do idoso e orientar sobre os caminhos disponíveis antes que o abandono econômico produza danos clínicos irreversíveis. Essa articulação entre saúde e direito é uma das formas mais concretas de cuidado integral que uma equipe geriátrica pode oferecer.
O que o médico pode fazer nesse contexto?
O profissional de saúde que acompanha o idoso tem um papel importante no contexto da pensão alimentícia: documentar de forma precisa as necessidades clínicas do paciente, os custos associados ao seu tratamento e o impacto que a insuficiência financeira está produzindo sobre sua saúde. Esse laudo, elaborado com rigor técnico, pode ser determinante tanto em processos de mediação quanto em ações judiciais, tornando visível para o sistema jurídico o que a precariedade financeira está produzindo no corpo e na saúde do idoso.
Yuri Silva Portela pondera que cuidar do idoso em situação de vulnerabilidade financeira é reconhecer que a saúde não se separa das condições materiais de vida. Um filho que sustenta o pai com dignidade está contribuindo para sua saúde tanto quanto qualquer médico que o trata.