Entidade defende fim de mecanismo criado como medida transitória, enquanto emplacamentos de veículos eletrificados importados crescem 214% em três anos
A indústria automotiva brasileira voltou a colocar na mesa um debate antigo, mas que ganhou urgência com a explosão dos carros elétricos importados. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea, pediu o fim do incentivo para veículos que chegam ao país desmontados, no formato conhecido como CKD ou SKD, e defendeu a manutenção das tarifas de importação sobre elétricos. A pergunta que fica para o consumidor é inevitável: essa mudança vai encarecer os carros elétricos no Brasil, ou vai justamente fortalecer a produção nacional e, no longo prazo, baratear os preços?
O pedido da entidade chega em um momento de números expressivos. Segundo a Anfavea, os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025, um avanço que reflete tanto o apetite do consumidor brasileiro por essa tecnologia quanto a estratégia de marcas internacionais, especialmente chinesas, de usar o Brasil como destino de produtos já fabricados em outros países.
O que está em jogo com o fim das cotas de importação
O mecanismo de CKD e SKD permite que montadoras tragam veículos quase totalmente montados ao Brasil, pagando uma tarifa de importação reduzida em comparação à de um carro completo, sob a justificativa de que essas peças seriam posteriormente integradas a uma linha de montagem local. Foi criado como uma medida transitória, pensada para facilitar a instalação inicial de novas operações industriais no país, mas a Anfavea argumenta que esse modelo já cumpriu seu papel e que sua manutenção prolongada pode reduzir os incentivos para que as empresas avancem rumo a uma integração produtiva mais profunda.
Os números reforçam o ponto da entidade. Em 2025, os modelos elétricos e híbridos produzidos efetivamente no Brasil representaram 26% das vendas dessa categoria. Em 2026, essa participação já teria saltado para 40%, segundo dados apresentados pela própria Anfavea, mostrando que a fabricação local de eletrificados está em expansão acelerada. A entidade reconhece que o mecanismo de importação facilitada pode ter sido importante nas fases iniciais de implantação de uma nova fábrica, mas defende que ele deveria evoluir para um modelo de maior ampliação do conteúdo nacional, com desenvolvimento de fornecedores locais de peças e componentes para veículos elétricos. A Anfavea também levantou a preocupação de que a manutenção indefinida das cotas de importação possa estar sendo usada por algumas empresas apenas para ampliar estoques, sem o compromisso correspondente de investimento produtivo no país.
O cenário mais amplo da indústria automotiva em 2026
O pedido da Anfavea não é um caso isolado, mas parte de um conjunto de desafios que a entidade já havia sinalizado para 2026. O presidente da associação, Igor Calvet, projetou em janeiro um crescimento de 3,7% na produção total de veículos no país neste ano, puxado principalmente pelo segmento de automóveis e comerciais leves, que devem crescer 3,8%. A expectativa de licenciamento segue em torno de 2,7% de alta, números que Calvet classificou como um “otimismo contido”, já que fatores como a reforma tributária e a taxa de juros, atualmente em 15%, ainda geram imprevisibilidade para o setor.
Outro ponto sensível levantado pela Anfavea é o avanço das importações chinesas. Em 2025, a China representou 37,6% dos veículos importados emplacados no Brasil, um volume superior a 187 mil unidades, alta de 55,6% em relação ao ano anterior. A entidade acredita que esse fluxo deve perder força ao longo de 2026 conforme novas montadoras que hoje importam passem a produzir localmente, mas reconhece que o ano ainda será desafiador no comércio exterior do setor, especialmente diante da necessidade de avançar em acordos comerciais com países como Argentina e Colômbia. Do lado positivo, 2025 marcou a primeira vez, desde a crise recente do setor, em que o Brasil exportou mais carros do que importou, impulsionado sobretudo pela forte recuperação das vendas para o mercado argentino.
O debate sobre as cotas de importação de veículos eletrificados deve continuar ao longo dos próximos meses, conforme o governo avalia as demandas da indústria nacional frente à pressão das marcas internacionais. Para o consumidor, o desfecho dessa discussão tem impacto direto no bolso: menos incentivo à importação pode significar mais investimento em fábricas brasileiras a médio prazo, mas também levanta dúvidas sobre o ritmo de queda nos preços dos elétricos no curto prazo. Acompanhar os próximos posicionamentos da Anfavea e do governo federal é essencial para quem está de olho na compra de um veículo eletrificado nos próximos anos.
Fontes: Agência Brasil, Terra, Car.blog.br
Autor: Diego Rodríguez Velázquez