MPF entra na Justiça contra a nova gasolina E32 e ameaça atrasar mudança nos postos

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Ação pede suspensão da mistura com 32% de etanol às vésperas da estreia marcada para 1º de agosto

A poucos dias da chegada da nova gasolina E32 aos postos de todo o país, o Ministério Público Federal decidiu entrar na Justiça para tentar barrar a medida. O órgão protocolou uma ação civil pública contra a União pedindo a suspensão imediata da mudança, alegando que o governo federal não apresentou garantias técnicas suficientes sobre a segurança do combustível para os veículos que já circulam pelas ruas brasileiras. A informação foi divulgada nesta semana e reacende um debate que já vinha dividindo especialistas do setor automotivo desde a aprovação da norma.

A disputa atinge diretamente uma das principais diretrizes da Lei do Combustível do Futuro, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética em meados de julho. Essa norma elevou o percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, uma mudança que parecia pequena no papel, mas que agora enfrenta resistência jurídica justamente por causa dos possíveis efeitos sobre o desempenho e a durabilidade dos motores.

Por que o MPF questiona a segurança do novo combustível

O procurador da República responsável pela ação argumenta que a União teria reaproveitado dados de validação da antiga gasolina E30, valendo-se de uma margem de variação de 2% aceita em testes laboratoriais para justificar a elevação até 32%. Para o Ministério Público, esses ensaios originais mediam apenas parâmetros pontuais de dirigibilidade da mistura anterior, sem respaldo técnico ou científico para sustentar de forma definitiva o novo patamar. Além do bloqueio liminar até a realização de perícias independentes, o órgão pede o pagamento de R$ 500 milhões por danos morais coletivos, um valor que dá a dimensão da gravidade que o MPF atribui ao caso.

O documento também chama atenção para um detalhe que preocupa consumidores e mecânicos, que é a possibilidade de o teor de etanol chegar a 34% na bomba de combustível, dependendo das variações permitidas no processo de mistura. Segundo o procurador, intervenções dessa magnitude no mercado exigem comprovação técnica ampla, já que cabe ao Estado garantir que o produto oferecido à população não traga prejuízos à frota nacional de veículos.

Os riscos apontados para carros e motos

Entre os principais receios levantados na ação está o de que o excesso de álcool anidro na gasolina acelere o surgimento de oxidação em componentes metálicos, provoque desgaste precoce das bombas de combustível e comprometa o funcionamento do sistema de injeção eletrônica em determinados modelos. Esse alerta coincide com avaliações de engenheiros da indústria automotiva, que apontam três grupos mais vulneráveis à mudança: motocicletas, projetadas com margens mais estreitas de tolerância ao combustível; carros antigos, concebidos em épocas nas quais a gasolina trazia volumes bem menores de etanol; e veículos importados a gasolina pura, que não possuem tecnologia flex nem calibração específica para a realidade brasileira.

Para quem roda com motor bicombustível, no entanto, o cenário é bem diferente. Esses motores foram projetados para lidar com variações elevadas de biocombustível, o que significa que não há risco relevante de quebras ou falhas mecânicas associadas à nova mistura. A mudança, nesse caso, deve ser sentida principalmente no bolso, já que o etanol possui menor densidade energética que o derivado de petróleo, exigindo um volume maior de combustível para entregar o mesmo desempenho. A expectativa é de uma elevação discreta no consumo médio, entre 1% e 2%, dependendo do projeto de cada motor.

O que diz o governo e o que pode acontecer com o preço

Do outro lado da disputa, o Ministério de Minas e Energia sustenta que a gasolina E32 cumpre todos os requisitos de segurança exigidos e que a aprovação se baseou em metodologias já consolidadas em ambiente controlado. O governo também defende a medida citando três ganhos principais, a redução da dependência de gasolina importada, o estímulo à demanda interna por etanol, estimado em cerca de 600 milhões de litros adicionais, e o corte estimado de 552 mil toneladas na emissão de gases de efeito estufa ao longo do próximo ano.

No campo financeiro, o ministério projeta uma potencial redução de R$ 0,03 por litro no valor final da gasolina nas bombas, desde que o preço do etanol permaneça estável nas usinas produtoras. Essa promessa, porém, depende diretamente da forma como distribuidores e postos de combustível repassam a diferença ao consumidor final, o que na prática significa que o alívio no preço não está garantido e pode variar bastante de região para região.

Com a ação do MPF agora em tramitação, o desfecho mais aguardado pelos motoristas é justamente saber se a Justiça vai suspender a mudança antes da data prevista para 1º de agosto ou se a gasolina E32 chegará normalmente às bombas enquanto o processo segue seu curso. De qualquer forma, quem dirige carros antigos, modelos importados a gasolina pura ou motocicletas mais sensíveis já começa a se perguntar como se preparar para essa transição, um tema que deve continuar gerando debate nas próximas semanas, tanto entre especialistas do setor automotivo quanto entre os próprios consumidores que dependem do abastecimento diário nos postos.

Fontes consultadas:
Auto+ TV
Ministério Público Federal
Ministério de Minas e Energia

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