Durante um período de vendas significativo, o painel de monitoramento de uma operação de e-commerce começa a apresentar tempos de resposta superiores ao normal. Embora ainda não seja uma situação crítica, com apenas alguns segundos a mais em determinadas páginas, essa alteração já gera preocupação. A primeira reação da equipe de plantão, muitas vezes, é adotar uma postura de espera, na esperança de que o problema se resolva por conta própria antes que seja necessário formalizar qualquer tipo de ação. Essa expectativa pode ser compreensível, mas é importante lembrar que, mesmo pequenas variações no desempenho podem indicar problemas subjacentes que, se não tratados, podem se agravar rapidamente. A falta de ação nesse momento pode levar a consequências mais sérias, afetando a experiência do cliente e, consequentemente, as vendas.
Rolando Bonaccorsi, diretor de operações da Vert Analytics, já viu essa cena se repetir várias vezes ao longo da carreira, em empresas diferentes, quase sempre com o mesmo padrão: ninguém quer ser a pessoa que declara oficialmente um incidente, na esperança de que a situação melhore antes que isso seja necessário.
A tela fica lenta, mas ninguém aperta o botão
Nos primeiros minutos, a degradação parece pequena o suficiente para não justificar o alarde de um incidente formal. Declarar significa acionar pessoas, interromper reuniões, gerar visibilidade para algo que ainda pode se resolver sozinho nos próximos minutos, sem qualquer intervenção adicional.
Esse raciocínio, individualmente razoável, costuma se repetir em cada pessoa que observa o painel, cada uma esperando que outra tome a iniciativa de formalizar o problema. O resultado é um período de indecisão coletiva, enquanto a degradação, ignorada, continua se espalhando silenciosamente pelo sistema.
Por que declarar parece pior do que não declarar?
Declarar um incidente formal carrega, em muitas culturas organizacionais, um peso quase punitivo: alguém vai perguntar por que aconteceu, quem estava de plantão, o que poderia ter sido evitado. Esse medo implícito de responsabilização individual empurra as pessoas para o caminho de menor visibilidade possível.
Essa dinâmica é especialmente perversa porque pune exatamente o comportamento que deveria ser incentivado: agir rápido diante de um sinal de degradação. Assim, Rolando Bonaccorsi expõe que as equipes que associam declarar incidente a assumir culpa aprendem, com o tempo, a esperar o problema crescer o suficiente para que a decisão de agir deixe de ser opcional.
O custo real do atraso em assumir o problema
Cada minuto de indecisão coletiva é um minuto sem as pessoas certas mobilizadas, sem comunicação estruturada para stakeholders, sem qualquer processo formal de investigação rodando. O que poderia ter sido resolvido rapidamente, com poucos usuários afetados, transforma-se em uma indisponibilidade maior, visível para muito mais gente, informa Rolando Bonaccorsi.
Na prática, o custo desse atraso quase sempre supera qualquer desconforto que declarar cedo demais poderia gerar. Um incidente declarado e resolvido em minutos incomoda muito menos do que uma degradação prolongada que só vira prioridade quando já afeta uma parte relevante dos usuários.
Declarar incidente como ação de força, não de fraqueza
As empresas que conseguem mudar essa cultura consideram um incidente como um sinal de vigilância responsável, em vez de admitir uma falha. A métrica que passa a ser relevante não é a quantidade de incidentes declarados, mas a rapidez com que cada um foi identificado e solucionado após a declaração.
Ao fim, Rolando Bonaccorsi acredita que essa transformação de mentalidade, mais do que qualquer tecnologia de monitoramento avançada, é o que efetivamente distingue operações que lidam com pequenos problemas daquelas que, devido à hesitação coletiva, permitem que esses problemas se amplifiquem até se tornarem crises evidentes para todos.